O assaltado foi a vítima
[Crônica de 16 de fevereiro de 2001]
Meu amigo, como boa parte de quem mora em apartamento, mora em apartamento por medo de assalto, uma mania que os paulistanos têm, mas que vão descobrindo que não resolve.
Como ele costuma fazer, naquele fim de semana ele também foi para seu sítio, descansar ao lado de sua mulher. Depois do churrasco, da piscina, do tênis, da caminhada pela mata e duas noites bem dormidas, embaladas pelo som dos sapos e dos grilos, voltaram para São Paulo, para dar com seu apartamento arrombado e roubado.
Pelo que meu amigo me disse, levando em conta o que tinha dentro do apartamento, os ladrões deveriam ser bem mixos, porque só levaram coisas vistosas, mas de pouco valor.
O jeito foi fazer o Boletim de Ocorrência e aí começa novela: depois de mais de uma hora de delegacia, finalmente saíram com o Boletim feito e com as autoridades comunicadas. Agora, era esperar que em breve teriam notícias.
Como breve é um conceito subjetivo, alguns meses depois a mulher do meu amigo foi chamada na delegacia, porque tinham novidades para ela: pelo menos um dos assaltantes fora identificado: pasmem, era seu marido, ou seja, a própria vítima!
A polícia tinha certeza disso porque havia identificado suas impressões digitais numa garrafa de uísque encontrada no bar do apartamento.
Depois de algum tempo, ela conseguiu explicar à autoridade competente que aquilo era um engano e que as impressões de seu marido estavam na garrafa porque ele era o dono do apartamento e era ele quem bebia aquele uísque.
Só que, mesmo a autoridade concordando com a explicação – e pedindo desculpas pelo engano – o inquérito não parou e quase que meu amigo foi indiciado por assaltar seu apartamento, com base em suas impressões digitais em sua garrafa de uísque.
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