Uma morte fora de hora
[Crônica de 3 de setembro de 1997]
Nem sempre os contos de fadas acontecem como nos contos de fada. Por alguma razão que ninguém sabe qual é, a vida invariavelmente desmente os contos de fadas, transformando-os em estórias trágicas, com finais tristes e enredos terríveis, onde a princesa chora não pelo príncipe prisioneiro, mas por sua própria prisão, às vezes em castelos de ouro e prata, mas em geral num mundo que não as compreende, e as explora, com a crueldade das madrastas que se casam com os velhos reis.
Se alguma vida, antes de ser vivida, pudesse ser prognosticada, a vida da princesa Diana seria, com certeza, a que teria mais chances de ter prognósticos felizes.
Bem-nascida, bem-criada, rica, bonita, vivendo num país onde todas as portas já se lhe abriam ainda antes de ser princesa, sua marca registrada deveria ser o sorriso radiante dos que são abençoados por deus.
E, no entanto, revendo sua imagem pela televisão, nas mais diversas situações, e em diferentes momentos, poucos sorrisos aparecem tão tristes, poucos olhos foram tristes quanto os da princesa.
Ela sorria, mas sorria com a boca. Seus olhos tinham sempre a tristeza de quem viu o mundo, de quem passou por ele sendo marcada de forma dura, e não vivendo um conto de fadas.
Eu não sei por que os casais vivem bem ou mal. Ser princesa de Gales não é fácil, especialmente quando o casamento com o príncipe faz água desde o começo.
Diana conheceu o fundo do poço e saiu dele. Saiu dele porque além de carisma, tinha a coragem que a fazia obstinada, e que a forçava tentar ser feliz.
Ela morreu tentando. Morreu fora de hora, moça, bonita, amada por todo um país e admirada pelo mundo.
Morreu tentando, buscando refazer sua vida e encontrar a felicidade que ela ainda não tivera.
Deus dá e deus tira. Deus levou-a quando para ela o sonho estava próximo.