O centro velho de noite
[Crônica de 10 de outubro de 2003]
São Paulo é uma cidade que se ultrapassa e surpreende, diariamente. De repente um vazio se enche de casas, um prédio sobe, outro some. Fábricas mudam de lugar, lojas viram shoppings, a avenida nova é aberta na marra porque a cidade cresceu para lá.
Não há limite físico que segura a cidade. Ela vai e depois volta, deixando a decadência como marca da sua passagem e da lembrança que tudo é efêmero.
O centro velho já foi, faz tempo, o coração do Brasil. Na época do café era lá que as coisas aconteciam, no banco Comércio e Indústria, na Bolsa de Café, nas ruas 15 de Novembro e Boa Vista.
E também no largo do Café, onde, quando eu comecei a trabalhar, tinha um dos melhores cachorros-quentes do mundo. Depois veio a decadência e o centro velho começou a se esvaziar, cada vez com menos gente, até se transformar em shopping de camelô, com as ruas esburacadas tomadas pelos vendedores que não têm mais medo do rapa, e ficam o dia inteiro gritando o preço de seus produtos.
Mas São Paulo é mesmo inesperada. Sem aviso, como quem não quer nada, o centro velho começa a readquirir vida, nas noites do largo do Café, tomado por centenas de pessoas que se sentam nas mesas colocadas na rua para jogar conversa fora bebendo uma boa cerveja gelada.
Ainda não é o que já foi, mas é um recomeço, uma retomada do antigo hábito da cidade se mover, para lá e para cá, por conta de forças inexplicáveis, mas provavelmente atávicas, na descendência dos bandeirantes que cruzavam o Brasil com a impaciência de quem, cansado, procura um bar gostoso para tomar uma cerveja muito gelada.
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