Os pássaros
[Crônica de 23 de novembro 2009]
Não sei se é porque o chão está pintado de roxo e amarelo, nem se é porque o céu está azul e as folhas mostram verdes densos, dos mais variados tons.
Não sei se é porque a vida pega leve quando o calor dá as caras, ou se o horário de verão tem alguma coisa com isso.
Pode ser, porque tudo pode ser nesta vida cada vez mais inesperada.
Ninguém sabe de nada com certeza e quando sabe, antes de falar pede para a televisão não mostrar a cara e distorcer a voz. Medos, medos que crescem na rotina da cidade grande cada vez mais violenta, mais insensível, mais cheia de traumas.
Se algumas calçadas são pintadas com as flores que caem dos jacarandás e das tipuanas, outras sentem o peso do sangue manchando de vermelho o cinza sujo de seu cimento. Nada que não se multiplique nos quatro cantos da terra, em atentados terroristas, assaltos, sequestros, assassinatos e brigas de trânsito.
Mas não é esta a razão de ser desta crônica. O que me chama a atenção é a quantidade de pássaros que este ano tomou de assalto os espaços paulistanos.
São Paulo transformou-se num enorme aviário, com periquitos desafiando os sabiás para comer os coquinhos das palmeiras. Do outro lado, bem-te-vis, voam aos pares, enfrentando gaviões. Rolinhas são as donas dos quintais. Pássaros pretos trazem de volta a poesia dos tico-ticos e até os pardais que andavam sumidos resolveram dar o ar da graça. Quem ganha somos todos nós enfeitiçados pela cantoria.
___
Siga nosso podcast para receber minhas crônicas diariamente. Disponível nas principais plataformas: Spotify, Google Podcast e outras.
Crônicas da Cidade vai ao ar de segunda a sexta na Rádio Eldorado às 5h55, 9h30 e 20h.