A eterna cara da boçalidade
[Crônica de 11 de novembro de 1997]
O que leva alguém a entrar num ônibus para assaltá-lo? Quanto um ladrão pode faturar num assalto destes? São perguntas que eu já fiz em outras crônicas e para as quais até hoje não encontrei a resposta.
Mas a falta de resposta não diminui o grau de boçalidade que corre solto por todas as grandes cidades do mundo. Faz pouco tempo, num único dia, dois motoristas de ônibus foram assassinados em São Paulo.
O primeiro, ao que parece, em função do cobrador haver reagido a um assalto, e o segundo, ninguém sabe direito o que aconteceu. O ônibus parou no ponto e quando abriu a porta, um homem atirou, matando o motorista.
As duas situações são trágicas e revelam o lado negro da vida nas grandes cidades. É bobagem imaginar que este cenário sem sentido é exclusivo da cidade de São Paulo, ou que ele não existe nos países acima do Equador.
É a mesma coisa, aqui ou lá, ou em qualquer canto da terra onde as aglomerações humanas tenham atingido ou ultrapassado determinados parâmetros. O que choca é que não há razão para a violência atingir um grau tão alto de estupidez.
Supondo que o assalto a um ônibus renda os milhões que alguém pode levar assaltando uma transportadora, ou uma caixa forte de banco, o que não é o caso, fica a pergunta: por que matar o motorista que está simplesmente ganhando o salário para sustentar os seus?
A vida humana não vale mais nada. Qualquer animal vale mais do que o homem, pelo menos na visão de outros homens, que não têm instinto de sobrevivência, e por isso se assemelham às bestas feras que devoram os filhotes machos para preservar seus territórios de caça e reprodução.
Faz tempo que a falta de sentido é o único sentido da vida nas metrópoles.
Que o digam os massacres, os corpos sem cabeça, a guerra pelos pontos de droga, as violências de todos os tipos que cobrem de negro um dia a dia que poderia ser outro, não fosse o homem ser mais imperfeito do que ele próprio se imagina.
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