Tranqueira
São Paulo já foi murada, não era cidade, era vila, mas era murada, protegida contra a invasão dos indígenas inimigos de portugueses e tupis que moravam no planalto e faziam da vida uma bela aventura, se metendo sertão adentro até os contrafortes dos Andes.
Não eram muros como os da ilha de Rodes, ou da cidade Lucca. Não, eram muito mais modestos, uma grande tranqueira de paus, pedras e terra amassada rodeando a vila encarapitada na colina onde os jesuítas, grandes estrategistas, haviam erguido seu pequeno colégio ao lado da igreja de São Paulo, berço e molde da futura cidade, naquele momento ponto de união entre os moradores da região para se protegerem e viver melhor.
Foi de lá que Anchieta partiu chefiando um grupo de ataque contra os indígenas inimigos que cercavam o povoado. Deu certo, ele voltou vitorioso, com os inimigos fugindo ou aprisionados pelos seus homens, poucos brancos, mamelucos e indígenas da tribo de Tibiriçá, associado aos portugueses e sogro de João Ramalho e Pero Dias, casados com duas irmãs, Bartira e Terebé.
Pode mais quem chora menos. Rodes e Lucca se orgulhavam de suas muralhas, mas elas não foram suficientes para conter os turcos e os franceses que as atacaram, vararam, derrubaram e invadiram a cidadela e a cidade.
São Paulo com sua tranqueira de pau a pique e pedras, mal erguida, mal mantida, volta e meia abandonada, nunca foi invadida. A vila permaneceu íntegra e cresceu íntegra, primeiro, vila sonolenta, depois, cidadezinha, cidade e, finalmente, metrópole alucinada, hoje perdida no sem rumo de seu tamanho apavorante.
Agora a cidade já não tem uma grande tranqueira, mas é cortada por muros que prendem seus moradores, enquanto os ladrões fazem a festa.
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