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A cidade quase parando

As espatódias não têm muita noção e por isso se lançam de ponta cabeça nas empreitadas mais malucas. Para elas, ter ou não ter regras é praticamente indiferente, então se dão ao luxo de fazer coisas que outras árvores mais bem centradas pensariam duas vezes antes de fazer, até para não quebrar o ritmo da natureza embelezando a cidade.

Originalmente, a época das espatódias florirem é no final ou começo do ano. Agora já seria um pouco tarde, mas elas não estão nem aí, continuam florindo como se não tivessem regras, nem amanhã para limitar suas ações.

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As espatódias lembram certos motoristas que pouco se lixam com o fluxo das ruas, desde que eles se deem bem, e para isso não ficam inibidos de parar o trânsito, se colocando na última fila da esquerda para entrar na alça congestionada à direita.

Nada que não aconteça todos os dias, aliás, várias vezes por dia, nos mais variados cantos da cidade. Às vezes tem gente que não gosta e o assunto pode tomar dimensões mais sérias, até com pessoas feridas por conta do bate-boca e da briga em que acabam algumas dessas cenas.

Pode mais quem chora menos. As espatódias sabem disso. Por isso, as que se mostram fora de qualquer controle, normalmente são árvores grandes, plantadas em local com espaço para os galhos se estenderem para fora, cobertos de folhas, às vezes manchadas pelas flores vermelhas.

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Já os motoristas não têm muita certeza. Então, de vez em quando, o valente de um minuto atrás mete o rabo entre as pernas, porque o ofendido é mais forte ou está mais armado do que ele.

Tanto as espatódias como os motoristas que fazem o que não é para fazer estão errados. Mas isso, no Brasil de hoje, é um mero detalhe. Cada um faz o que quer, tanto faz se é árvore ou se é gente.

Crônicas da Cidade vai ao ar de segunda a sexta na Rádio Eldorado às 5h55, 9h30 e 20h

Antonio Penteado Mendonça

Advogado, formado pela Faculdade de Direito Largo São Francisco, com pós-graduação na Alemanha e na Fundação Getulio Vargas (FGV). É provedor (presidente) da Santa Casa de Misericórdia de São Paulo, ex-presidente e atual 1º secretário da Academia Paulista de Letras, professor da FIA-FEA e do GV-PEC, palestrante, assessor e consultor em seguros.