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São Paulo não tem mais garoa

Já teve um tempo que São Paulo era conhecida como terra da garoa. Invariavelmente a chuvinha fina, fria e chata tomava conta do cenário deixando cinza e triste a paisagem urbana.

Para se proteger dela, as pessoas usavam galochas, cachecóis e guarda-chuvas. E mesmo assim morriam de pneumonia, vítimas da friagem, depois de pegarem uma constipação.

Ah, os contos de Alfredo Mesquita mostrando a vida da classe média daquela época. Vale a pena serem lidos, pelo talento do autor e pela narrativa de um modo de vida que não existe mais.

São Paulo era a cidade que mais crescia no mundo. E todo mundo se orgulhava disso. E do Estado ser a locomotiva do Brasil.

Dia a dia a cidade mudava de cara. Perdia os antigos sobrados dos bairros próximos ao centro velho, abrindo espaço para os arranha-céus que hoje são parte da paisagem.

Mas a garoa, essa parecia imutável. Com sobradinhos onde se desenrolavam os dramas das famílias, ou com prédios cada vez mais altos, a garoa parecia eterna, condenado a cidade a conviver com o frio cortante que ela trazia na chuvinha enviesada, caindo lentamente no dia cinza e úmido.

Hoje São Paulo não tem mais a garoa enfezada que lhe marcou a paisagem. Ela também passou. O que não quer dizer que o clima da cidade ficou muito melhor.

Não ficou. E para matar as saudades, certas madrugadas do ano ainda trazem um projeto de garoa, na neblina densa que cobre o resto de noite e faz a vida parecer filme. De antigamente ou de terror.

Crônicas da Cidade vai ao ar de segunda a sexta na Rádio Eldorado às 5h55, 9h30 e 20h.

Antonio Penteado Mendonça

Advogado, formado pela Faculdade de Direito Largo São Francisco, com pós-graduação na Alemanha e na Fundação Getulio Vargas (FGV). É provedor (presidente) da Santa Casa de Misericórdia de São Paulo, ex-presidente e atual 1º secretário da Academia Paulista de Letras, professor da FIA-FEA e do GV-PEC, palestrante, assessor e consultor em seguros.