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Saudades

É incrível como uma cidade pode mudar rapidamente, sem remorso e sem olhar pra trás. O que era anteontem não é mais ontem, e o ontem também já não é, engolido pelo hoje que chegou antes, com medo do amanhã.

São Paulo não perdoa, atira. Ou vai em frente, sem dó nem piedade, impassível em sua marcha arrasando o planalto e deixando as ruínas do presente de ontem como peças arqueológicas para serem exploradas daqui a 500 anos, quando cientistas de Marte vierem examinar a Terra.

Campos Elíseos, Vila Buarque, Higienópolis, Paulista, Cerqueira Cesar, Jardins, Pacaembu, Alto de Pinheiros, Cidade Jardim, Butantã e os vários Morumbis.

Isso para ficar num lado só, porque em todos os outros ela também segue, sem medo de nada, exceto de parar.

Quem se lembra do sanduíche inventado de um bar chamado Maranduba? Quem se lembra onde o bar ficava? E lojas como a Casa Fretin, ou Ao Veado de Ouro? A Casa Orestes. A casa Califórnia, onde se comia o melhor sanduíche de linguiça da cidade. As duas lojas das Lojas Americanas, na Rua Direita.

Era outra cidade, que subiu para a Paulista, mas mal esquentou acento, descendo pra Faria Lima e de lá tocando em frente, Juscelino e depois Berrini a fora.

Quem pode mais chora menos. O hoje se acha eterno, mas amanhã será apenas sombra de um presente passado e quase esquecido, como os casarões dos Campos Elíseos.

E se o planalto ficar pequeno, não tem problema, a cidade sai dele, com a sem cerimônia com que nela se derrubam prédios.

Crônicas da Cidade vai ao ar de segunda a sexta na Rádio Eldorado às 5h55, 9h30 e 20h.

Antonio Penteado Mendonça

Advogado, formado pela Faculdade de Direito Largo São Francisco, com pós-graduação na Alemanha e na Fundação Getulio Vargas (FGV). É provedor (presidente) da Santa Casa de Misericórdia de São Paulo, ex-presidente e atual 1º secretário da Academia Paulista de Letras, professor da FIA-FEA e do GV-PEC, palestrante, assessor e consultor em seguros.