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Os sábias chegaram

 

Não tem mais dúvida, os sabiás chegaram para ficar, pelo menos por um bom tempo, em que vão piar todas as madrugadas. Tem quem goste, tem quem não goste. A Rosana, minha antiga colaboradora, tinha ódio dos sabiás porque ela acordava com a piação na madrugada. Eu gosto. Os sabiás me fazem pensar na vida. No ritmo da vida, no imponderável, quando eles são pegos no ar pela Clotilde, depois de atacarem sua tigela de comida.

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Os sabiás laranjeira tomaram São Paulo de assalto. A cidade é deles faz muito tempo. Ano a ano seu número cresce e eles se espalham pelos jardins e praças como se não tivesse amanhã, ou como se tivessem feito um acordo com Deus, pelo qual o céu da cidade é preferencialmente deles, com as outras aves podendo voar, mas tendo que respeitar a primazia dos sabiás. Pelo acordo, eles vão na frente e o resto voa atrás.

Os sabiás têm o mesmo problema que os demais seres vivos. Precisam garantir o futuro da espécie e a única forma de fazer isso é procriar – crescei e multiplicai-vos -, cruzar macho e fêmea para depois virem os ovos, cuidadosamente colocados em ninhos, um deles, todos os anos, feito numa orquídea amarrada numa palmeira do meu jardim.

Para chegar lá, a concorrência é acirrada. Por isso os sabiás desenvolveram a cantoria da madrugada. Não sei se é porque a luz da cidade os engana, o fato é que de madrugada a piação atinge níveis impressionantes, com as aves piando por toda a cidade, os machos chamando as fêmeas.

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Não tenho a menor ideia de como se dá a escolha, quais requisitos são importantes para um sabiá fazer sucesso e acasalar. Mas devem seguir rituais parecidos com os nossos ou, quem sabe, mais violentos.

É gostoso acordar de madrugada e saber que tem mais vida acordada. Que os sabiás estão alertas, aproveitando a noite para chamar as fêmeas.

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Crônicas da Cidade vai ao ar de segunda a sexta na Rádio Eldorado às 5h55, 9h30 e 20h.

Antonio Penteado Mendonça

Advogado, formado pela Faculdade de Direito Largo São Francisco, com pós-graduação na Alemanha e na Fundação Getulio Vargas (FGV). É provedor (presidente) da Santa Casa de Misericórdia de São Paulo, ex-presidente e atual 1º secretário da Academia Paulista de Letras, professor da FIA-FEA e do GV-PEC, palestrante, assessor e consultor em seguros.