O camisolão de Tiradentes
Se fossem vivos, os carcereiros portugueses que aprisionaram e depois enforcaram Tiradentes ficariam com vergonha. Pode ser até que entrassem com um processo por perdas e danos contra os líderes da república brasileira que elegeram o alferes mineiro para herói do movimento.
Imagine se alguma prisão portuguesa teve um único prisioneiro vestido com um camisolão. Seria no mínimo prova da mais absoluta incompetência manter um prisioneiro vestido com uma roupa tão inapropriada para uma cadeia como um camisolão, ainda mais branco.
O que é evidente é que na falta de um herói para chamar de seu, a República decidiu transformar em mártir um participante de um pequeno movimento, restrito a zona do ouro de Minas Gerais, no qual todos os outros envolvidos, em algum momento, foram perdoados pela coroa portuguesa.
Sem entrar no mérito da Inconfidência Mineira, que não teve maior repercussão no resto do Brasil, a figura de Tiradentes de camisolão branco tem o intuito evidente de fazer sua figura se assemelhar ao Cristo.
Dar um ar de santidade e pureza ao herói que deu a vida pela independência do Brasil, ainda por cima, transformado em república, nos moldes da jovem nação norte-americana, recém separada da Inglaterra.
Nesse sentido, há inclusive provas de que Tiradentes manteve contato com os pais da pátria norte-americanos. Que ele discutiu com eles a forma do governo brasileiro, depois da independência de Portugal.
Ninguém está questionando os propósitos de Tiradentes, nem colocando em dúvida sua integridade e lealdade ao movimento que abraçou e pelo qual deu a vida.
Estou apenas dizendo que nunca na história prisional de Portugal, houve um condenado a morte enforcado com um camisolão a Jesus Cristo. Até porque o depois não seria muito bom.
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