Sem nome e sem endereço
[Crônica de 6 de setembro de 2000]
No final da Vila Beatriz, quase onde começa o Alto de Pinheiros, tem uma rua pequena que eu não sei o nome, mas que é a continuação da Arquiteto Jaime Fonseca Rodrigues, a rua que sobe da Praça Panamericana e deságua o trânsito na rua Isabel de Castela.
A Isabel de Castela lá em cima fica à direita de quem sobe e a rua de que estou falando fica em frente, ligando a Arquiteto Jaime Fonseca Rodrigues à rua Leão Coroado.
É uma rua estreita, de mão única e por onde passa ônibus, e que por isso tem um ponto quase em frente da igreja que eu quero falar.
Da mesma forma que eu não sei o nome da rua, não sei o nome da igreja. É uma igreja pequena como a rua, sem charme e escondida pelo horizonte estreito, que praticamente impede quem passa de carro de perceber que ali, do lado esquerdo – a rua é de mão única e vem da Leão Coroado para Arquiteto Jaime Fonseca Rodrigues – tem uma igreja.
Típico templo de bairro de classe média, ela é pequena por fora e acanhada por dentro. Mas é uma igreja de grande frequência, tendo inclusive fama de boa para espantar mau olhado ou maré ruim.
Sei disso porque numa época de vacas mais do que magras, quando eu morava perto dela, minha mulher, um dia, levou seu padre para benzer minha casa.
Humilde, cinza, como que camuflada para não chamar a atenção ela não deixa de ser o retrato de uma imensa parte da população de São Paulo.
Gente que não aparece, que anda sem cara e quase sem ser notada, escondida pelo cinza das ruas e do ar, que faz mais triste o cinza morto da rotina cinza dessas vidas.
Vidas que se confundem nas missas de domingo, nas igrejas sem nome de quase todos os bairros onde a vida luta para preservar sua dignidade.
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