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Os caixões de isopor

[Crônica de 24 de abril de 1998]

Depois da cerveja gelada para viagem, sem dúvida nenhuma a maior contribuição do grupo alemão Basf para a felicidade do brasileiro, conseguida depois da introdução no país das geladeiras de isopor, um vereador paulistano, bem no espírito dos grandes caciques que auxiliaram na fundação da cidade, deu entrada num projeto de lei, no mínimo revolucionário.

Imbuído do mais alto ardor cívico, ciente e zelosos das tradições tupis que fizeram que por séculos os paulistas crescessem fortes e saudáveis, mesmo antes da descoberta do óleo de fígado de bacalhau, s. Exa. pretende modificar alguns rituais que não são sequer tão antigos assim.

Não bastasse a recuperação de hábitos caídos em desuso, a proposta ainda por cima reveste-se de alto teor ecológico, já que impede a poluição de vários mananciais subterrâneos, que no futuro, com certeza terão forte peso no fornecimento de água para os moradores da capital.

Não que a crônica pretenda servir de escada para o livro “Não verá país nenhum”, de Ignácio Loyola Brandão, que por ser bom não precisa de escada. Não, não, foi o próprio edil quem afirmou que com a adoção de sua sugestão, os restos putrefatos dos mortos enterrados nos cemitérios paulistanos não envenenarão os lençóis freáticos que cortam o subsolo da metrópole.

Acabando com o mistério, o que o nobre vereador deseja é substituir os tradicionais caixões de defunto de madeira por outros, feitos de isopor. Para os antropófagos que perambulavam pelo planalto de Piratininga nos idos de 1.500 seria a melhor notícia de suas vidas. Algo como a cura da aids para os dias de hoje.

Todavia, esta época de sonho e liberdade já vai longe e apesar da ideia do vereador ser boa, ele não explicou como os caixões de isopor serão carregados, com o defunto dentro, sem partirem ao meio.

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Crônicas da Cidade vai ao ar de segunda a sexta na Rádio Eldorado às 5h55, 9h30 e 20h.

Antonio Penteado Mendonça

Advogado, formado pela Faculdade de Direito Largo São Francisco, com pós-graduação na Alemanha e na Fundação Getulio Vargas (FGV). Provedor da Santa Casa de Misericórdia de São Paulo (2017/2020), atual Irmão Mesário da Irmandade, ex-presidente e atual 1º secretário da Academia Paulista de Letras, professor da FIA-FEA e do GV-PEC, palestrante, assessor e consultor em seguros.