A janela do meu escritório
[Crônica de 3 de setembro de 2001]
A janela do meu escritório tem uma vista privilegiada para quem mora na cidade de São Paulo. Através dela vejo árvores e um céu azul emoldurando prédios bonitos e bem tratados.
Não é uma vista comum na cidade. Em São Paulo os horizontes costumam ser curtos e sujos, exatamente ao contrário do horizonte da minha janela.
O verde é tão intenso dentro da paisagem que volta e meia me lembra a época que eu morava em Berlim, quando ainda tinha muro e andar de um lado para o outro podia ser muito complicado e, para um brasileiro, sempre emocionante.
Berlim é uma cidade rica, que naquele tempo apresentava um contraste impressionante, com o lado ocidental muito rico, muito arborizado e reconstruído e o lado oriental, também arborizado, ainda mostrando as cicatrizes da segunda guerra mundial.
Mas se o lado ocidental era rico, não quer dizer que não abrigasse a miséria, quase tão grande quanto a miséria das favelas brasileiras, viva nos guetos ocupados pelos turcos que buscavam o país porque lá ganhavam muito mais.
Faz tempo que não volto a Berlim. Não sei o que aconteceu com seus bairros turcos, nem com que cara a parte oriental ficou depois da reconstrução.
Mas não faz tanto tempo assim, estive em Colônia e nessa cidade encantadora, abençoada e protegida por uma das catedrais mais bonitas do mundo, descobri que a Alemanha já não é a mesma de quando eu morava em Berlim.
A violência e a estupidez tomaram conta das ruas, como se fosse da raça humana dar voltas para sempre voltar ao começo, quando o homem em qualquer lugar do planeta era apenas mais uma besta fera.