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A arte de dar

Houve época que os homens morriam por ela, pela ideia de dar. Época em que se sacrificar valia a pena, porque os ideais humanos falavam de bondade e redenção, despojamento e pureza. Época em que o reino do céu era a maior de todas as aspirações e lutar por ele era o grande ideal.

Foi o tempo em que São Francisco se fez santo e santa clara clareava as noites dos necessitados, amparando-os nos momentos difíceis.

Foi o tempo dos cavaleiros andantes e dos doze pares de França. Foi o tempo em que Tristão amou Isolda e que romeu e julieta morreram por engano.
Depois, como tudo no mundo, a moda passou e dar foi substituída por uma outra vontade, a vontade de receber.

Receber que com o passar dos séculos foi se transformando, ou melhor, foi se aprimorando, até chegar nos nossos dias, quando a moda é tomar, seja de que jeito for, aquilo que for.

Dar é tão anacrônico quanto uma mulher de anquinhas. Ninguém dá mais nada, ou quase nada, exceto, aquilo.

Não que seja errado, ou que eu esteja criticando quem dá, seja aquilo, ou qualquer outra coisa.

Pelo contrário, estou justamente fazendo a apologia do dar, de preferência amor, carinho, um pouco de boa vontade ou um simples gesto de ternura.

Estender a mão sem ficar perguntando quanto se vai ganhar com isto, ou se a outra mão não está contaminada por milhares de micróbios.

Ver na outra pessoa não um inimigo, ou sequer um rival, mas outro ser humano, de quem é possível se aproximar; para quem é possível um sentimento bom; de quem é – imagine o disparate – possível até se gostar.

Dar um pouco de si para fazer a vida melhor. Um pouquinho só, mas suficiente para fazer um outro sol brilhar e as estrelas aparecerem na noite escura que amedrontava outro ser humano.

Dar, sem medo, livre como um mergulho no mar.

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Crônicas da Cidade vai ao ar de segunda a sexta na Rádio Eldorado às 5h55, 9h30 e 20h.

Antonio Penteado Mendonça

Advogado, formado pela Faculdade de Direito Largo São Francisco, com pós-graduação na Alemanha e na Fundação Getulio Vargas (FGV). Provedor da Santa Casa de Misericórdia de São Paulo (2017/2020), atual Irmão Mesário da Irmandade, ex-presidente e atual 1º secretário da Academia Paulista de Letras, professor da FIA-FEA e do GV-PEC, palestrante, assessor e consultor em seguros.