O Dia das Mães dos filhos que sumiram
[Crônica de 15 de maio de 2002]
O Dia das Mães é um dia especial, um dia diferente, uma data criada inicialmente para incentivar o comércio, que tomou um rumo muito maior e nos faz parar para pensar e homenagear quem carrega o andor nas costas, a maior parte do tempo.
A natureza é sábia e sabe o que faz. Qualquer filme de história natural mostra a dedicação da maior parte das fêmeas aos seus filhotes. Dedicação que chega ao ponto de dar a vida por eles, mesmo não tendo certeza se o sacrifício feito é a certeza da sobrevida da cria.
É assim porque a natureza é sábia e fez macho e fêmea diferentes, cada um com um foco, com uma missão e várias tarefas. E pensando bem, honestamente, a missão das fêmeas é muito mais pesada. Por isto as fêmeas são sempre mais resistentes.
Mas existem situações em que esta resistência chega a ser crueldade. Quando a morte se transforma no desejo lógico e não vem, a resistência da fêmea assume caráter de vingança dos deuses, de paga de pecado, sendo que o único pecado foi ter dado à luz filho que se perdeu nas esquinas da vida.
Um João, ou um André, ou um Pedro, que um dia saiu de casa e nunca mais voltou, nem mandou notícias, sem ao menos ser notícia de jornal, participar de crime, ou morrer de morte violenta, um corpo estendido na rua, coberto por uma folha de papel.
As mães da praça da Sé são o retrato da esperança. E da tristeza. Da tristeza profunda de quem não sabe o que aconteceu com o filho, mas que não perde a esperança de voltar a encontrá-lo, um dia, um mês, alguns anos depois dele ter desaparecido sem razão, devorado pelo vento ou pela cidade grande, que como areia movediça engole tudo na vida, menos a esperança das mães que esperam a volta dos filhos que sumiram sem razão.
Das mães que todos os domingos dividem a sua dor para suportar a vida, no cinza duro da praça da Sé.
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