Os nanicos com passado
[Crônica de 4 de janeiro de 2002]
Certa vez, escutei de uma deputada federal muito séria que ela também era a favor de um cociente eleitoral mínimo para que um partido político tivesse seus membros empossados em cargos eletivos. A sua única ressalva era em relação aos partidos com passado de luta, que, na sua visão, deveriam, mesmo não atingindo o cociente, ter seus membros empossados, por causa de seu passado.
Confesso que no começo fiquei atônito. Depois, pensando melhor, cheguei à conclusão de que a ilustre deputada tinha razão, ou pelo menos, alguma razão. E se ela estava certa, a regra que ela pretendia ver aplicada para partidos com passado de luta deveria se aplicar a todos os partidos políticos que de alguma forma tivessem lutado por alguma coisa no Brasil.
A ideia era absolutamente revolucionária e profundamente democrática, mesmo não levando em conta a vontade do eleitor. Aliás, a sua grande revolução era justamente não levar em conta a vontade do eleitor. Em nome do passado, mesmo o mais distante, o eleitor que se danasse e a vontade das urnas que fosse para o inferno. Qualquer partido que tivesse lutado contra ou a favor de alguma coisa, tinha o santo direito de ter representantes eleitos e empossados, mesmo não representando o mínimo exigido pela lei, que nos países mais inteligentes, para evitar os erros do passado, está perto dos 5% dos votos.
Aprofundando no tema, cheguei à conclusão de que tínhamos uma oportunidade única de refazer a história do Brasil, colocando em todas as casas legislativas representantes de todos os partidos que nos 500 anos de nossa história se formaram dentro e fora da lei, para lutar por alguma coisa.
Seria no máximo tão ruim como é hoje, mas nunca pior. O duro seria escolher os membros a serem empossados, porque inclusive eles não deveriam estar sujeitos à vontade dos votos.