É preciso ter jogo de cintura
[Crônica de 7 de maio de 2001]
Entre as principais qualidades que alguém precisa ter para ser um bom maitre de restaurante da moda, o jogo de cintura aparece em primeiro lugar. É claro que um bom maitre precisa muito mais do que jogo de cintura, mas, com certeza, sem jogo de cintura ele vai ter problemas sérios com boa parte de sus clientes, todos muito importantes, ou, pelo menos, mais importantes do que os da mesa ao lado, que por alguma razão mágica, conseguiram se sentar antes dele.
É só entrar num destes restaurantes para ver o jeito como as coisas funcionam e a saia justa permanente em que o maitre anda de um lado para o outro, dando atenção para todo mudo, como se cada um fosse o presidente da república, ou pelo menos um ministro importante.
E o duro é que não para de chegar gente importante, sendo que as mais importantes, para demonstrar poder, chegam sempre na hora que a casa está mais cheia, evidentemente sem avisar que iam e exigindo uma mesa o mais rapidamente possível porque têm um compromisso inadiável, com um cliente básico, meia hora depois.
É um balé curioso, movido por uma coreografia toda especial, mas que se repete, sempre mais ou menos parecida, em todos os restaurantes da moda no mundo inteiro.
E no meio dela, o Jocelim passeia como um peixe dentro d’água. Seu universo é o ambiente delicado e precário dos restaurantes da moda. Sua argila são os clientes que frequentam estes restaurantes. E a sua obra prima é fazer o balé fluir, sem que ninguém perceba que este ou aquele são mais estes ou aqueles do que este ou aquele.
A cara do Jocelim é o retrato da satisfação do dever cumprido, cada vez que ele dá um nó e faz alguém que queria ser atendido imediatamente imaginar que está sendo atendido, quando, de verdade, está sendo meio que deixado de lado, ou para mais tarde, porque outro, importante de verdade, chegou na moita e precisa ser atendido sem levantar um maremoto, porque passou na frente de gente muito importante, menos importante do que ele.
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