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A cor da música

A música sai fazendo voltas em cores que se espalham na brisa que não sopra. Toma a sala, entra em cada canto, ocupa todos os espaços, lentamente, como uma cobra hipnotizada pelo som da flauta de um faquir.

Suave, fala dos anjos que voam pelos céus, levando em suas trombetas as mensagens de Deus. Fala do vento nos bosques, assobiando através das folhas e trazendo para a cidade o cheiro de terra molhada misturado ao das flores, que por um breve instante, antes de ser engolido por mais uma golfada de diesel, nos sabe ao paraíso.

A música entra pelos poros, contorna a alma e arrepia a base da espinha, enquanto o coração bate compassadamente, seguindo o ritmo calmo que nos conta os segredos das musas, e nos embala como o mar em dia sereno.
Seus sons lembram a vida no princípio, quando a terra era virgem e as máquinas enormes ainda não haviam rasgado o seu ventre, nem retalhado a sua pele com cicatrizes de asfalto.

A música fala de viagens para fora do corpo, para outras galáxias, sentindo a falta de gravidade permitir-nos dançar danças que no dia a dia nos são impossíveis.

Flutuar no espaço, parte mínima da grande orquestra de Deus, um grão de pó na imensidão do Universo, fazendo parte da imensidão do Universo.

A vida da cidade corre lá fora, com todas as suas verdades, com todas as suas buscas frenéticas… Dentro da sala, apenas a música se espalha e dança, em cores que se alargam e se retraem, que rodopiam, que te enlaçam e que te soltam, e que tornam a te enlaçar, como um casal enamorado dançando um para o outro, longe do tudo, voando na música que os leva um para dentro do outro, para o sonho do outro, fazendo o sonho realidade, nos poucos minutos em que a música é alma do mundo.

E a música sabe do seu fascínio. A música sabe do seu dom. Por isso ela se esmera, e sai mansa, como uma mulher apaixonada que passa os dedos bem de leve pela nuca do amado, sentindo-o sentir o carinho e se entregar, completamente vencido para a aventura infinita da descoberta do amor.

A música sabe, desde que o homem, num canudo de bambu domou o vento, da sua capacidade de mudar a vida. De reinventar o sonho. A música sabe que ela é o alimento da alma. Por isso ela dança… E se recobre de cores.

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Crônicas da Cidade vai ao ar de segunda a sexta na Rádio Eldorado às 5h55, 9h30 e 20h.

Antonio Penteado Mendonça

Advogado, formado pela Faculdade de Direito Largo São Francisco, com pós-graduação na Alemanha e na Fundação Getulio Vargas (FGV). Provedor da Santa Casa de Misericórdia de São Paulo (2017/2020), atual Irmão Mesário da Irmandade, ex-presidente e atual 1º secretário da Academia Paulista de Letras, professor da FIA-FEA e do GV-PEC, palestrante, assessor e consultor em seguros.